Grávida Durante a Covid-19

0
183

Sou uma grávida em tempo de COVID-19 ou coronavírus e escrevi este texto às 39 semanas da minha gravidez com a minha experiência.

Quem me acompanha sabe que nunca fui pessoa de receios, de desanimar ou de pensar que amanhã pode ser pior que hoje, mas houve várias fases em que tive.

Tinha receio de colocar um pé na rua, de não desinfetar bem as mãos ou de não estar à altura deste desafio: estar grávida em tempos de COVID-19.

O meu percurso desde setembro de 2019 até agora foi totalmente atípico: com o aumento das rendas em Lisboa, tive de sair em tempo record, deixei de ser freelancer e passei a trabalhar com um horário e compromissos diários.

Mudei-me para a zona do Seixal (temporariamente), estava quase três horas, por dia, presa no trânsito e não conseguia fazer mais nada além de trabalhar e procurar soluções para ser mais feliz.

No meio de todas essas alterações, chegou a melhor notícia de todas: estava grávida.

grávida covid-19
Descobri que estava grávida dia 21 de novembro de 2019

“Vem quando tiver de ser” disse eu tantas vezes e veio.

No meio da turbulência da minha vida (que já era muita), eu e o mundo enfrentamos a pior importação de todas da China: o coronavírus.


TAMBÉM PODES GOSTAR DE LER:


A minha gravidez em cenário COVID-19

Descobri que estava grávida no dia 21 de novembro.

Em dezembro foi detetado o primeiro caso em Whuan, uma cidade que quase ninguém conhecia na China central, mas que nunca mais ninguém irá esquecer.

A 24 de janeiro foi detetado o primeiro caso na Europa, em França.

A 31 de janeiro foi registado o primeiro caso em Itália, com dois chineses turistas de visita a Roma .

No dia 2 de março são confirmados os dois primeiros casos em Portugal: um médico de 60 anos que esteve de férias no norte de Itália e um homem de 33 que esteve em trabalho em Espanha.

Após estes casos, foi um crescendo. A propagação do vírus é rápida e está a ser avassaladora.

A solução parecia simples: ficar em casa.

As hashtags mais divulgadas do mundo passaram a ser #ficaemcasa ou #stayathome.

Essa realidade/ solução não podia durar para sempre.

Quase tudo fechou: As lojas, os restaurantes, os centros comerciais, tudo à exceção dos hospitais, centros de saúde, supermercados, farmácias e pouco mais.

As pessoas ficaram em layoff (a empresa assegura uma parte do ordenado e o restante é compensado pelo estado – mas na grande maioria com uma baixa significativa).

Milhares foram despedidos.

Outros estiveram em teletrabalho (como foi o meu caso).

No meio deste cenário, tive um bebé a crescer dentro de mim durante todos estes meses.

Foi triste e assustador ver a minha barriga a aumentar sem o apoio e a presença de todos os que fazem parte de mim desde sempre.

Fomos para o Alentejo, onde não estivemos em contacto com ninguém.

Conseguíamos estar juntos e com muito campo para caminhar após 8 horas de trabalho diário em casa.

Se não fossem essas caminhadas teria enlouquecido. Era a única forma de arejar a cabeça depois de um dia inteiro em frente ao computador.

Nunca imaginei que um cenário destes fosse possível, no entanto foi.

Como foram os últimos tempos de confinamento?

O primeiro estado de emergência foi decretado em Portugal no dia 22 de março e vigorou até 2 de abril.

Após esse período foi renovado mais duas vezes por períodos de 15 dias.

No dia 3 de maio de 2020 deu-se a transição entre o estado de emergência para o estado de calamidade.

O mesmo concedeu um pouco mais de liberdade aos portugueses e permitiu que muitos conseguissem ter uma vida mais “normal”.

Foi nessa altura em que rumei até Ponte de Lima para ver a minha família e me verem antes do meu bebé nascer.

Sempre sonhei fazer uma festa gigante para revelar o sexo do nosso bebé, no entanto durante todo este período via esse sonho cada vez mais distante.

Numa das ecografias pedimos à médica para escrever o sexo num envelope para o abrirmos quando conseguíssemos estar todos juntos.

Abrimos o envelope com o sexo do bebé, em Ponte de Lima, a 23 de maio de 2020

No meio de tudo isto, resolvemos abri-lo só os dois num local especial.

grávida covid-19
O envelope aguardava ser aberto desde 13 de março e ficou guardado à espera que fosse possível fazer festa

Foi junto à ponte romana de Ponte de Lima que soubemos que vinha aí um menino.

covid-19

Estávamos só os dois, mas mais felizes do que nunca.

Desconfinamos e agora?

A economia a nível mundial está um caos.

A economia em Portugal está um caos.

As vidas de milhares de milhões de pessoas no mundo inteiro está um caos.

Finalmente já nos podíamos juntar com até 10 pessoas.

Reunimos a família mais próxima para lhes contar que o nosso bebé era um menino.

Foi um dia tão feliz, mas tão estranho ao mesmo tempo.

Quase dois meses de isolamento social transformou-me numa pessoa estranha, com medos e receios estranhos.

Não há beijos, não há abraços… não há sentimentos exteriorizados.

Contamos ao mundo através da cor interior do bolo: Era azul.

Até aqui não tinha praticamente nada para o nosso rebento.

Tínhamos receio de sair de casa e rodear-nos de pessoas, quanto mais comprar o que quer que fosse fora da Internet.

Era toda uma logística estranha.

Aos poucos as lojas e os centros comerciais abriram e foram mantendo medidas que me deixaram mais confortável.

A máscara tornou-se obrigatória e a desinfeção das mãos a cada entrada nos sítios também.

Todos percebemos que a realidade Covid-19 não é temporária e que ainda vai permanecer connosco durante algum tempo.

A adaptação é o melhor remédio.

Vamos fazer as coisas com calma, com as devidas recomendações e com muito respeito pelos outros.

Como estou a viver esta gravidez?

Já me fizeram esta pergunta algumas vezes e nunca sei bem o que responder.

Está a ser muito diferente do que imaginei, mas no bom sentido (tirando tudo o que já falei).

Nunca me senti enjoada, com náuseas ou indisposta.

Tive apenas um episódio de desmaio, a meio da noite, depois de uma cólica muito forte.

Estava sozinha e foi assustador acordar no chão sem saber muito bem o que tinha acontecido.

Mas tirando isso, está a ser tudo perfeito.

Com o estado de emergência o meu marido ficou em casa comigo e caso contrário dificilmente teria acompanhado a minha gravidez como acompanhou.

Dediquei sempre tempo para o trabalho, para o nosso bebé, o exercício (sobretudo as caminhadas pelos montes alentejanos) e para uma alimentação saudável.

Resultou! Sempre me senti sã, feliz e de perfeita saúde.

Apesar do isolamento social, tentei manter o contacto com as pessoas de quem gosto e até consegui fazer novas amizades no gigante mundo da Internet (o Instagram é genial para isso) com pessoas que têm acompanhado as minhas partilha e estão em idêntica situação.

Quais são as principais diferenças entre a “vida normal” e o agora?

O facto de estar habituada a trabalhar todos os dias, oito horas por dia, num escritório com um computador à frente, fez com que não sentisse a diferença entre isolamento social/ trabalho.

A maior diferença era que antes demorava mais de uma hora a chegar ao trabalho e a casa e após o isolamento demorava 5 minutos entre levantar-me e começar a trabalhar.

Este mundo digital criou novas oportunidades de trabalho, mesmo em tempos de crise, mas separou-nos inevitavelmente das pessoas.

Trabalhar como marketing manager numa empresa e fazer a gestão de redes sociais da mesma permitiu-me manter-me ativa profissionalmente.

Estudei comunicação, acima de tudo porque gostava de comunicar com pessoas, ouvir histórias e contá-las.

Ao longo dos anos fui-me desiludindo com a profissão que escolhi inicialmente: o jornalismo.

Não havia espaço para contar as histórias das pessoas que eu queria e que na minha opinião tinham valor.

Estudei, procurei mudar de área e fazer novamente algo que me fizesse feliz.

Acreditei que era feliz, no entanto tudo isto também me fez refletir.

Como é que alguém que vive numa prisão diária acorrentada a um computador e a um telemóvel pode ser feliz?

Na verdade já vivia em isolamento social, oito horas por dia, quase cinco dias por semana.

Julgo que este coronavírus vai trazer reflexão a muitas cabeças.

Quais são os planos para o futuro?

Não sei. Sinceramente não sei.

Sou mãe e esse é o meu único próximo projeto.

Claro que esta cabeça não pára e já está a pensar em formas de adaptação a várias realidades possíveis para estar com o meu filho e ter uma vida sustentável.

Quando sabemos o que queremos para a nossa vida é sempre mais fácil definirmos um trajeto e uma forma de estar e viver.

Mais do que nunca sei que a Elsa está mais forte e que tudo vai correr bem.

Existe mais um motivo para estar bem e feliz: chama-se Vicente.

Segue-me no Instagram e acompanha as minhas aventuras em tempo real.

COMPARTILHAR
Avatar
Tenho 31 anos, sou uma mulher feliz, cheia de teorias e amante de viagens. Já visitei 13 países e perdi a conta de com quantas cidades me deslumbrei. Este é o estilo de vida que eu escolhi!